De passagem

passo eremita pelo mundo

em tudo nada tenho
em nada tenho tudo
nada sei dos espaços
além de abraços
nem meu é o tempo
em que me deito

passo devagar e no fundo

sou de mim esses espelhos
que me vêem de partida
sou da cor e da dor os estilhaços
já não sou o que era
jamais serei
o mesmo que sempre fui
aqui estarei

passo temerário vagabundo

sou daqui dali e mais além
a nenhures eu chego e me detenho
sem querer
mais que saber sido meu desejo
o lume reacendido e já ardido
a semente flor ida que ainda vejo

passo a passo
o mais fecundo
amor a tudo resiste
meu nada pleno
de amor em tudo existe
nem só eu

passo eremita pelo mundo

2014-05-30

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