Memória de um fim anunciado

quando te vais
quando me vou
não chegam as palavras

perderam-se
e a espera é vazia
sem sombra do sentido
que por elas
e por nós havia

o tempo vagueia
tonto
como se nunca houvera
nos conhecido

só a memória se afoita
já sem tempo
para o resgate


como a palavra que ainda resta
e por que resiste
quando te vais
quando me vou
amor

2017-11-30

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Platonismo

arranco à memória
em cada noite escura
os sinais que me levam
teus olhos verdes

meu coração levita
não é meu domínio
de tudo se lembra
de nada padece
eu dele sim
me vou em descuido
vivo meu pensamento
a vida me esquece

não nasci por arte
nem sei se o desejo
ou se é destino
que aqui e agora
apenas almejo
nem toquei os sonhos
nas pontas dos dedos
perdi o pé
mas caminho

2017-11-30

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Com vencimento

estou convencido
para uma opinião vencedora
toda a verdade é suspeita

2017-11-30

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Pedra sobre pedra

medram esquecimentos
no sítio onde nasci
medram os silêncios
mas não eu aqui

a palavra esgotada
num último suspiro
escolhe esconder-se
em ignoto retiro

diz-me tempo porque vais
aonde não sei
nem me ouço
na invenção
de outros mundos

diz-me tempo que ilusão
ainda não criei
nem desfiz
de mais tempos
ou mais profundos

que é efémera a memória
de tempos ancestrais
e a vida não envelhece
mas sim seus sinais

a morte vai e volta
cega
pedra sobre pedra
cai
sobre as crenças dos vivos

2017-10-30

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Visão

quero-te menina dos meus olhos
lágrima limpa minha emoção
quero-te sentida toda minha pele
água no fogo de meu coração

quero simples teu sorriso simples
quero nem saber por que razão
quero apenas nada mais ter
que de ti minha ilusão

e se largo teu sorriso deixa
flores no ar agruras pelo chão
ai menina que meus olhos choram
mais não vêem que minha visão

2017-10-30

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Autocontrolo

passeio a minha impaciência à trela
para que não me veja incandescente

2017-10-30

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Extinção da espécie

olhem para mim: estou em perigo
conquistei o pleno
nada mais tenho para fazer

olhem para mim: estou em perigo
estou nas nuvens
e nada há para acontecer

olhem para mim: estou em perigo
não sei se perdido
de amores ou pura fantasia

olhem para mim: estou em perigo
o paraíso não tem inferno
humana sorte a de fugir da morte
e sempre toda a vida morrer

olhem para mim: estou em perigo
não cegueis da luz
que a estrela em noite escura
é mais clara de se ver

2017-09-30

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Fôlego do tempo

nos termos em que nos damos vida
num só fôlego do tempo
sem a solidez de um passado
nem do futuro discernimento
carregamos a lucidez do momento
na presença de um pavio

2017-09-30

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Eternidades

todos os dias são anos demais
luto apenas pelos que me são devidos
todos os dias

2017-09-30

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Poesia sem nome

eu sou antes do meu nome
inominável a gente
que ainda não sabe

a poesia é depois

a procura onde procuro chegar
hei de morrer
vivendo a tentativa

2017-08-31

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