Dias nas pedras

hoje é um dia que nasce
igual
hoje é um dia que morre
um mais que desconto à vida
que a vida morre-se vivendo
e vivo
pelejo contra minha fome
de palavra que sobreviva

hoje é meu dia de sorte
da sorte que tem a morte
viver mais um dia comigo
e sei que todo o seu tempo
não mais é que meu tempo
em cada dia que vivo

e este dia passará
e novo dia será
e este dia será noite
e outra noite seria
amanhã
se eu fizesse
de outro um novo dia

só estas pedras são as pedras
onde me deito já não pedras
mas descanso dos sentidos
lápides já nem memórias
porque das memórias eu vivo

2017-12-31

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Incertezas

que há de ser entre as estrelas?
que cadência te sobrevive?
que palavra unges quando escreves?

nasces vento morres paz
tens intempéries no destino
encomendas da vida e da morte
sobre teu dorso de intentos
quem te vê sob sua nesga
não mais que inflexão de espelhos
escondendo o breu da sorte
sob o umbigo dos tempos

prisioneiro de um corpo incrédulo
em alma indecisa (aflita)
auto estimando incertezas
a cada pavio

que há de ser entre as estrelas?
que cadência te sobrevive?

2017-12-31

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Atrevimento

a trevo m’à sorte

2017-12-31

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Memória de um fim anunciado

quando te vais
quando me vou
não chegam as palavras

perderam-se
e a espera é vazia
sem sombra do sentido
que por elas
e por nós havia

o tempo vagueia
tonto
como se nunca houvera
nos conhecido

só a memória se afoita
já sem tempo
para o resgate


como a palavra que ainda resta
e por que resiste
quando te vais
quando me vou
amor

2017-11-30

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Platonismo

arranco à memória
em cada noite escura
os sinais que me levam
teus olhos verdes

meu coração levita
não é meu domínio
de tudo se lembra
de nada padece
eu dele sim
me vou em descuido
vivo meu pensamento
a vida me esquece

não nasci por arte
nem sei se o desejo
ou se é destino
que aqui e agora
apenas almejo
nem toquei os sonhos
nas pontas dos dedos
perdi o pé
mas caminho

2017-11-30

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Com vencimento

estou convencido
para uma opinião vencedora
toda a verdade é suspeita

2017-11-30

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Pedra sobre pedra

medram esquecimentos
no sítio onde nasci
medram os silêncios
mas não eu aqui

a palavra esgotada
num último suspiro
escolhe esconder-se
em ignoto retiro

diz-me tempo porque vais
aonde não sei
nem me ouço
na invenção
de outros mundos

diz-me tempo que ilusão
ainda não criei
nem desfiz
de mais tempos
ou mais profundos

que é efémera a memória
de tempos ancestrais
e a vida não envelhece
mas sim seus sinais

a morte vai e volta
cega
pedra sobre pedra
cai
sobre as crenças dos vivos

2017-10-30

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Visão

quero-te menina dos meus olhos
lágrima limpa minha emoção
quero-te sentida toda minha pele
água no fogo de meu coração

quero simples teu sorriso simples
quero nem saber por que razão
quero apenas nada mais ter
que de ti minha ilusão

e se largo teu sorriso deixa
flores no ar agruras pelo chão
ai menina que meus olhos choram
mais não vêem que minha visão

2017-10-30

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Autocontrolo

passeio a minha impaciência à trela
para que não me veja incandescente

2017-10-30

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Extinção da espécie

olhem para mim: estou em perigo
conquistei o pleno
nada mais tenho para fazer

olhem para mim: estou em perigo
estou nas nuvens
e nada há para acontecer

olhem para mim: estou em perigo
não sei se perdido
de amores ou pura fantasia

olhem para mim: estou em perigo
o paraíso não tem inferno
humana sorte a de fugir da morte
e sempre toda a vida morrer

olhem para mim: estou em perigo
não cegueis da luz
que a estrela em noite escura
é mais clara de se ver

2017-09-30

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